
A educação pública estadual de Santa Catarina nunca mais será a mesma. Pelo menos para os 47 professores que ficaram acampados durante aproximadamente três semanas em pequenas barracas na Praça Tancredo Neves, ao lado do riacho e de um quiosque, próximo da Assembléia Legislativa e ao redor do prédio da Secretaria de Educação, na rua João Pinto, em Florianópolis. Idealismo, determinação, solidariedade, vocação, renúncia e espírito corporativo foram algumas das características desses guerreiros professores. O acampamento da Educação foi um registro inédito nesta histórica greve do magistério. Situação dramática pelas precárias condições de pernoite, principalmente. As noites gélidas do rigoroso inverno em Florianópolis agravaram o sofrimento destes professores. O vento sul e a sensação térmica chegavam a zero grau. Sem fogo para aquecer. Chuva, frio, vento sul, fome, saudade da família, dos amigos, das escolas e das cidades em que vivem eram os maiores problemas. Mas eles enfrentavam sem reclamar. O regime adotado era semelhante ao adotado pelos militares. Havia hora para recolhimento: 22:00 horas. Proibido fumar, bebida alcoólica, nem pensar. Discussões partidárias vedadas a todos, ainda que alguns tivessem suas preferências pessoais. Entre as motivações, a música sempre presente, as amizades conquistadas no convívio das barracas e as visitas incentivadoras. Todos, sem exceção, separaram-se de seus familiares, de suas casas e de suas comunidades, tranquilos, mas firmes em suas posições e convicções, na esperança de melhores dias para a educação catarinense.
Diário da Despedida
8 de julho de 2011
“Bom dia, escrevo a todos vocês as últimas palavras, em mistura de pedido, despedida e tristeza, nosso acampamento foi retirado no dia 06/07 após a Assembleia Estadual da categoria (que veio até o nosso encontro, como a mãe que vem buscar o filho), desmontamos nosso acampamento, saímos lentamente após tantas despedidas entre colegas (principalmente os das horas mais difíceis), sai sem olhar para traz para não ver aquele espaço vazio onde foi a minha casa durante os últimos dias em um gesto pessoal de despedida enquanto outros colegas na rua cantavam o hino nacional brasileiro.
Não vou tentar aqui explicar o momento ou meus sentimentos, pois não seria capaz, mesmo com todas as palavras de expressar a milésima parte do sentimento. Quero lhes falar não das dificuldades e sofrimentos do acampamento, quero olhar na direção do futuro, após a tomada da decisão da continuidade da greve, (que me fez ficar com medo das suas consequências).
Contudo, revelou que grande parte da nossa categoria não está disposta a abrir mão de direitos conquistados em lutas históricas, frente ao dilema, entre o medo que me coagia a retroceder somado a preocupação com os educandos e a forte ansiedade que nos consome nos tempos difíceis da vida, mas era preciso olhar o todo, e percebi o que estava quase me escapando (cegado pelo meu medo), meus colegas não estão dispostos a recuar (grande parte ao menos não). A insatisfação não era de uma facção ou corrente dissonante, era de quase toda categoria estadual.
Será que o medo me venceu como a aqueles colegas que não aderiram a greve? (a resposta estava guardada exatamente no fundo do meu coração, nas lembranças das amizades dos colegas de acampamento) retroceder agora neste momento crucial era deixa-los sozinhos para lutar em meu lugar! Isso não posso admitir!
Minha regional (São Miguel do Oeste) optou por retroceder, por isso trouxe na mala além dos meus pertences o compromisso de atuar na reconstrução do movimento, e a partir de agora o grito que não irei deixar calar será “Levanta Oeste. Professor tua categoria precisa de você!”.
Poderia aqui citar inúmeros autores ou filósofos, mas escolho uma simples letra de música (Pedro Bial – Escreva sua História).
“Escreva a sua história na areia da praia, para que as ondas a levem através dos 7 mares. Até tornar-se lenda na boca de estrelas cadentes. Conte a sua história ao vento, cante aos mares para os muitos marujos; cujos olhos são faróis sujos e sem brilho. Escreva no asfalto com sangue, grite bem alto a sua história antes que ela seja varrida na manhã seguinte pelos garis. Abra seu peito em direção dos canhões, Suba nos tanques de Pequim, Derrube os muros de Berlim, Destrua as cátedras de Paris. Defenda a sua palavra, A vida não vale nada se você não viver uma boa história pra contar.”
Nenhum governo tem direito de retirar o sonho e os direitos legítimos de uma categoria em troca de promessas futuras para devolve-los em forma parcelada, e ainda querer nos fazer acreditar que tivemos avanços, chega quem aceita a mentira também é responsável pela corrupção, violência e desestruturação da educação pública, pois tornou-se conivente com aquele que mente e engana o povo, este estigma não vou carregar comigo, basta de mentiras, falácias e subterfúgios a hora é agora.
Por isso para finalizar eu troco meus medos e a tristeza que sinto neste momento pelos riscos de continuar a luta, por isso, vou gritar para meus colegas “Levanta Oeste. Professor tua categoria precisa de você!”. Professor Cesar Luiz Theis.

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